O primeiro (grande) tombo a gente nunca esquece

Era verão.

Uma noite quente, daquelas que a simples ideia de ficar dentro de casa é um verdadeiro pecado. O céu estava cheio de estrelas, aqueles pontos brilhantes que, quando crianças, jamais nos atrevíamos a apontar por conta do medo de que uma verruga nascesse na ponta do indicador.

Pedalava sem parar. Minha bicicleta amarela da Hello Kitty, quando se achegava às minhas mãos, se tornava um corcel indomável. Eu e meus vizinhos cavalgávamos com nossas bicicletas. Meus dedos se firmaram em volta dos guidões. As palmas das mãos suavam. Ao meu lado estava o menino em sua bicicleta vermelha. Aquela última volta se tornara uma competição. Eu nunca apostava corridas, naquele dia, porém, resolvi tentar.

Meus pulmões pareciam prestes a explodir. A boca estava seca, o suor escorrendo pela nuca. O coração batia tão alto que fui capaz de jurar que todos podiam ouvi-lo. TUM-TUM TUM-TUM TUM.
Iria vencer. Só precisava de um pouquinho mais… um pouquinho mais… um pouquinho mais e…
BUM.

Tudo escuro. Tudo calado. Tudo quieto.

Uma onda de calor e frio me embalou. O pânico enroscou-se em minha garganta e subiu por meus calcanhares de menina. Percebi que estava de olhos fechados. Abri-os devagar. Olhei ao redor.
Em cima de mim estava minha bicicleta amarela, a bicicleta vermelha de meu vizinho e meu vizinho. Tentei me mexer e me deparei com meu joelho. A cor vermelha do sangue me fez perder o fôlego. Veio a dor. Em seguida, o grito. O meu grito.

Fui colocada em cima do sofá de casa. Tiraram as almofadas e verificaram o estado do joelho. Era um belo machucado, capaz de me fazer quase engasgar de tanto chorar. Os vizinhos tentaram me acalmar. Bobagem. Minha mãe sabia que quando se tratava de ferimentos, eu era a rainha do drama. A condessa do escândalo.

Os dias após a queda foram difíceis. Eu tinha dificuldade para andar, subir e descer as escadas. A hora do banho era ainda mais terrível. Apenas sentada em uma cadeirinha de plástico verde e com um saco amarrado ao joelho, permitia que minha mãe me ajudasse. Se uma única gota de água caísse, o fim do mundo estaria próximo. Outra sessão de choro se iniciaria.

Usar o uniforme da escola também se tornou árdua tarefa. Eram necessárias camadas de curativo para que o pano não grudasse e a cicatrização não fosse interrompida. Eu, que vivia com os joelhos ralados, as pernas roxas e os cotovelos arranhados por me arrastar desastradamente durante brincadeiras, fui obrigada a me comportar durante mais tempo do que gostaria.

Naquela noite tive minha primeira grande queda. Meu primeiro grande machucado. Mal sabia que muitas outras quedas viriam, assim como dezenas de outros machucados. Hoje sei que alguns ferimentos ficarão expostos por toda nossa vida, enquanto outros ficarão guardados em nosso íntimo, numa eterna tentativa de recuperação. Aprendi que chorar não resolve, mas, alivia. Aprendi que pode até demorar, mas o tempo cura.

Não me recordo a idade que tinha quando tudo isso aconteceu, porém sei que muito chorei, muito gritei e muito sofri. E minha maior lição daquele tempo é que tudo passa, assim como o choro, a dor e o sofrimento passaram. O que me restou foi uma cicatriz no joelho direito. Uma lembrança palpável de que os grandes aprendizados deixam profundas marcas.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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