Regras para escritores

Ao contrário da maioria das profissões, não existe um regulamento para ser/se tornar escritor. Sim, existem as regras gramaticais, as regras da ortografia, as leis que regem cada língua. Mas, já parou para pensar que não há um manual para escritores?

A verdade é que ser escritor é uma decisão – ou vocação – que requer bravura. E visto que não existem regras definidas, cada escritor tem a liberdade (e ouso até dizer que tem o dever) de criar suas próprias regras. Veja o exemplo de Elmore Leonard, escritor e roteirista estadunidense:

1. Nunca comece um livro com o clima
Se for apenas para criar atmosfera, e não para mostrar a reação de um personagem ao tempo, você não deve se estender muito. O leitor terá a tendência de folhear adiante a procura de pessoas. Existem exceções. Se você é o Barry Lopez, que tem mais formas de descrever gelo e neve do que um esquimó, você pode relatar o clima por quantas páginas quiser.

2. Evite prólogos
Eles podem ser irritantes, especialmente um prólogo seguido de uma introdução que vem depois de prefácio. Mas esses são normalmente encontrados em não-ficção. Um prólogo em uma novela é contextualização, e você pode colocar essas informações onde quiser.

3. Nunca use o verbo “disse” para conduzir um diálogo
A linha de diálogo pertence ao personagem; o verbo é o escritor enfiando seu nariz [e se intrometendo]. Mas o verbo “disse” é menos invasivo do que resmungou, engasgou, advertiu, mentiu. Uma vez eu percebi Mary McCarthy terminando uma linha de diálogo com ”ela asseverou”, e tive que parar de ler para pegar o dicionário.

4. Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”
… ele admoestou gravemente. Usar um advérbio dessa forma (ou quase de qualquer outra forma) é um pecado mortal. O escritor está expondo-se imensamente, usando uma palavra que distrai e pode interromper o ritmo do diálogo.

5. Mantenha seus pontos de exclamação sob controle
Você não pode colocar mais de dois ou três para cada 100,000 palavras de prosa. Se você tem o dom de brincar com exclamações como Tom Wolfe, você pode usá-las como e quando quiser.

6. Nunca use a expressão “de repente” ou “a casa caiu”
Essa regra não precisa de explicações. Eu percebi que escritores que usam “de repente” tendem a ter menos controle no uso de pontos de exclamação.

7. Use sotaques regionais, interioranos, com moderação
Uma vez que você começar a soletrar foneticamente palavras no diálogo, você não será capaz de parar. Observe a forma como Annie Proulx captura o sabor das vozes de Wyoming no seu livro de contos “Curto Alcance”.

8. Evite descrições detalhadas de personagens
No livro “Colinas Parecendo Elefantes Brancos”, de Ernest Hemingway, qual a aparência do “americano e a garota com ele”? “Ela tirou seu chapéu e o colocou na mesa”. Essa é a única referência de uma descrição física na história, e ainda assim nós vemos o casal e distinguimos cada um pelo tom da sua voz, sem o uso de nenhum advérbio.

9. Não entre em muitos detalhes ao descrever lugares e objetos
A não ser que você seja Margaret Atwood e consegue pintar cenas com linguagem ou escrever paisagens no estilo de Jim Harrison. Mas mesmo se você é bom nisso, você deve evitar que descrições imobilizem a ação e o desenrolar da história.

10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular
Pense no que você pula durante a leitura de um romance: parágrafos grossos de prosa que têm muitas palavras. O que o escritor está fazendo, está escrevendo, [enchendo linguiça], talvez descrevendo mais uma vez o tempo, ou talvez mergulhando na cabeça do personagem; e o leitor ou sabe o que o cara está pensando ou não se importa. Aposto que você não pula os diálogos.

Incrível, não? Note que são regras simples, mas capazes de nortear o processo de criação.

Os meus dez mandamentos

Inspirada por essas regras, criei minhas próprias regras. Esses são os 10 mandamentos da Bianca e, portanto, trata-se de uma visão particular do que acredito ser primordial e inegociável para escrever boas histórias. Confira:

  1. Não exagere nas descrições, seja de personagens, lugares, sentimentos ou situações
  2. Usar palavras difíceis não te fará parecer inteligente e nem ajudará a conquistar o respeito e a admiração dos leitores. Menos é mais!
  3. Seja firme e corajoso ao escrever
  4. Deixe que os personagens te guiem. Eles têm vida e vontade própria, aceite
  5. Construa diálogos genuínos
  6. Leia e releia. Reescreva quantas vezes for necessário
  7. A cada final de parágrafo/capítulo dê um bom motivo para que o leitor queira continuar
  8. Evite qualquer tipo de clichê
  9. Se você que é o autor não gostar do que está lendo (porque está extenso demais, denso demais, raso demais, chato demais) o leitor gostará menos ainda
  10. Proponha-se a melhorar absolutamente sempre

Você tem regras para escrita?
Caso não, meu conselho é que elabore, a seu próprio gosto, uma lista de regras. Lembre-se de que elas serão uma espécie de autoguia e, portanto, devem ser muito pessoais. A escolha do número de regras também é toda sua. O mais importante é criar algo que possa te conduzir nessa jornada incrível que é ser escritor!

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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