Relato de uma escritora

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Imagem de Yerson Retamal por Pixabay

Eu tinha dez anos quando escrevi meu primeiro livro.

Ele tinha cem páginas e foi todo escrito a mão. Eu escrevia um capítulo, minha amiga escrevia outro em sequência e uma terceira amiga ilustrava os trechos que mereciam destaque.

A ideia surgiu após uma atividade comum. Quem nunca, em tempos de escola, teve que “continuar a história”?

A continuação deveria ter no máximo trinta linhas. E foi ali, naquele momento, que descobri que a minha imaginação não tinha limites. Eu até poderia (como fiz na época) entregar à professora as trinta linhas exigidas. A história, porém, não poderia se restringir a esse número. Eu não poderia me limitar a trintas linhas.

Eu queria mais. Eu precisava de mais. Mas aquele foi início de uma história sem fim: a minha história com as palavras.

Outros livros vieram depois daquele. Outros mundos, outros personagens, outras criações. Em 2014 cheguei a lançar os dois primeiros livros de uma saga na Bienal do Livro de São Paulo. Por problemas com a editora, porém, não pude dar continuidade às publicações.

Contudo dei continuidade à minha vocação: escrever. E ano após ano, independente do quão perto ou longe eu estivesse dessa vocação, as pessoas me parabenizavam no dia 25/7, o Dia do Escritor.

Eu sempre me senti honrada por ser considerada escritora. Sempre me senti privilegiada por ver que as pessoas me enxergavam como escritora. E sempre me senti feliz pelo orgulho que essas pessoas demonstravam ao dizer que conheciam uma escritora.

Porém, apesar das congratulações, na medida em que fui crescendo, a minha certeza a respeito de quem eu era foi diminuindo. De repente, diferente da época em que eu orgulhosamente me auto intitulava escritora, me senti duvidosa.

Eu era uma escritora, afinal?

Afinal, o que era preciso para ser escritora?

Eu era Tricampeã no Desafio de Redação do Grande ABC. Eu tinha livros publicados. Eu tinha centenas de textos escritos, dentre poemas, contos, crônicas e artigos. Eu era conhecida como “a garota da redação”, a “menina dos livros”, mas isso me tornava uma escritora?

Eu não tinha (e continuo não tendo) fama. Eu não era (e continuo não sendo) uma autora conhecida. Meus livros publicados em pequena tiragem já não existem no mercado. Meus textos, durante muito tempo, foram exclusivos para família e amigos. Isso me impossibilitava de ser escritora?

Carreguei essa dúvida ao longo dos anos. E por mais de uma vez me vi ocultar a palavra escritora. Não porque eu sentia vergonha. Na verdade, era exatamente o contrário; eu não me sentia digna de carregar esse título.

Durante muito tempo me pareceu que ser escritor era uma profissão restrita aos grandes. Aqueles cujos nomes ficaram eternizados em suas obras, aqueles cujas obras foram traduzidas para diversas línguas, aqueles cujas obras foram adaptadas ao cinema, aqueles que venderam milhões. Aqueles, que por intermédio da palavra, mudaram o mundo.

Eu não tinha nada disso. E o que eu tinha?

Amor. Paixão. Entrega. Dedicação. Empenho. Brilho nos olhos.

Era isso que eu tinha. Tudo o que eu tinha era o desejo incontrolável e interminável de criar. De traduzir ideias, de ser intérprete de sentimentos. E é justamente isso que faz um escritor ser um escritor.

Costumo dizer que diferente da maioria das profissões, não existe Faculdade para Escritores. Não existe curso profissionalizante para escritores. Não existe formatura. Você não recebe um diploma. E é justamente por isso que nós, por muitas vezes, evitamos dizer em voz alta e admitir que somos escritores.

Isso porque se denominar escritor pode parecer presunçoso. Afinal, “você só escreve em um blog, não é? Você nunca publicou um livro. Você só tem uma página no Instagram com meia dúzia de seguidores. É apenas o seu hobby”, é o que dizem.

Eis a questão: não é pouco. E, definitivamente, não é pra qualquer um. Pode parecer pouco pra quem pouco se importa. Mas escrever, com alma e coração, é só para os que sabem transbordar e se derramar em papel e palavras.

Hoje me considero e me compreendo escritora. Não pela quantidade de textos que escrevo, nem pelos livros que publiquei no passado, nem pelos livros que continuo escrevendo e trabalhando para publicar no presente. Mas porque é a minha essência. Porque eu já era escritora antes de ser Relações Públicas.

Sei que é um pouco assustador se assumir como escritor. É uma responsabilidade enorme. Mas mais assustador ainda é se diminuir. É desacreditar que você é escritor.

Porque eu sou como Simone de Beauvoir descreveu:

“O fato de que sou escritora: uma mulher escritora, não uma dona de casa que escreve, mas alguém, cuja existência, em sua totalidade, é comandada pelo ato de escrever”.

E a sua existência é comandada por qual ato?

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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