Ansiedade: o monstrinho em cima da cama

ansiedade
Imagem de Alexas_Fotos por Pixabay

Histórias infantis retratam monstros que se escondem embaixo da cama das crianças. Bem, eu sou adulta e diria que meu malvado (nada) favorito, é tão ousado que fica em cima da cama. Na verdade, ela é tão audaciosa que me segue pelos cômodos da casa. E, antes da quarentena, a danada até chegava a passear comigo por aí, feito chiclete que gruda na sola do sapato e dificulta a caminhada.

O Brasil é o país com a maior prevalência de ansiedade no mundo (9,3%). Além disso, em tempos de pandemia a Organização Mundial da Saúde prevê aumento do número de casos relacionados a problemas de saúde mental, como estresse e ansiedade.

É, os números não mentem. E eu faço parte desses números.

Sou ansiosa desde que me conheço por gente. Quando era mais nova, contudo, não sabia que esse era o nome dado àquela estranha sensação de medo, aquela expectativa desmedida que eu sentia. Adultos gostam (e precisam) dar nomes às coisas. E logo eu consegui catalogar o monstrinho, ou melhor, a monstrinha que, de certa forma, cresceu comigo.

Sim, a ansiedade cresceu comigo. Cresceu comigo porque a verdade é que na medida em que eu cresço, ela (contra minha vontade) quer crescer também. Jamais permiti que se tornasse maior do que eu, é claro. Mas, ultimamente, ela anda bastante perversa.

Minha ansiedade gosta de chamar atenção. Ela se manifesta de diferentes formas. A do momento é a falta de ar. Uma falta de ar tão terrível que chega a me doer o peito. Mas ela também já me fez tremer, chorar, ter dores de cabeça. Já me tirou o sono, a paz, a calma.

Felizmente eu me conheço. E depois de tanto tempo de convivência, posso dizer que a conheço também. Conheço seus sintomas e procuro, todos os dias, métodos para aliviar a pressão que ela exerce. Procuro maneiras para diminuir sua presença na minha vida. E procuro até um meio para me livrar (de uma vez por todas) dessa indesejada inquilina.  

Assim como os sintomas, as maneiras para acalmar a fera variam. Pode ser o controle da respiração. Pode ser escutar música, ler um livro. Pode ser assistir um filme, ver um vídeo engraçado. Pode ser conversar com alguém. Pode ser movimentar meu corpo, ocupar (ou esvaziar) minha mente. Muitas possibilidades, todas elas eficientes, mas não necessariamente eficazes.

Não sei dizer se a pandemia e o isolamento social acentuaram meu grau de ansiedade, mas posso afirmar que me fizeram pensar mais a respeito. E, ao contrário de episódios anteriores, quando a ansiedade aparecia e eu procurava despacha-la o mais rápido possível, passei a conversar com ela. Passei a tentar entendê-la.

Agora, quando minha arqui-inimiga aparece, eu lhe faço a seguinte pergunta: por que você está aqui? O que te trouxe aqui?
E ela tem a resposta. Sempre tem. Às vezes demora um pouco para se abrir, mas ela sabe muito bem a razão de ter se feito presente.

Em diversas ocasiões eu sentia um desconforto, uma angústia, mas não acreditava estar ansiosa. Ah, eu estava ansiosa sim. E para conseguir acalmar a ansiedade, eu primeiro precisava entender a raiz do problema; isto é, exatamente o que a estava despertando de seu sono profundo.

Quando descobria a razão era muito mais simples fazer a ansiedade retornar para sua casinha. Era muito mais fácil colocá-la debaixo da cama. Era muito melhor e mais seguro lidar com ela, pois eu sabia exatamente com quem estava lidando.

A ansiedade me contou um de seus segredos há alguns meses. Talvez você já saiba, mas, de qualquer modo, vou compartilhar. Ela disse:

eu sou o excesso de futuro.

Ela é. E eu, que vivo o hoje pensando no amanhã, sou alguém que precisa, diariamente, lutar contra essa monstrinha.

Todos nós enfrentamos monstros. Maiores, menores, com dentes pontiagudos e garras afiadas. Alguns estão atrás da porta, outros debaixo da cama. Outros estão no nosso ombro, ao nosso encalço, ao nosso lado. Cada um de nós tem batalhas com demônios que ninguém vê. E só a gente sabe o quanto eles, apesar de invisíveis, são capazes de nos fazer mal.

Não estou dizendo que as longas conversas com a ansiedade a tornaram minha amiga. Não. Nós continuamos sendo adversárias ferrenhas. O trabalho dela é me atrapalhar. O meu trabalho é não deixar que ela me atrapalhe. Diria que nós duas fazemos um bom trabalho, mas o meu sempre superou o dela.

Apesar de sermos opositoras, muito aprendi com ela. Graças à ansiedade aprendi a escolher batalhas. Aprendi a olhar com cuidado para cada situação da vida e questionar: eu posso mudar isso? Está sob o meu controle? Se não está sob o meu controle, eu mudo ou eu aceito? E com as respostas, consigo administrar a ansiedade. Consigo viver melhor.

Eu sei que a ansiedade pode ser bem má. E sei que nem sempre armas comuns parecem funcionar contra ela. Então, se você também é ansioso, faça o que te relaxa, o que te ajuda a se sentir menos tenso. Mas também sugiro que tente entender melhor a sua ansiedade ou qualquer outro monstro que te persegue. Procure a causa. Entenda a causa. E comece o seu processo de restauração e reestruturação interna.

Enquanto escrevo este texto, tive que puxar o ar algumas vezes, pois minha ansiedade está aqui latindo feito um cão raivoso. O desemprego, a instabilidade, as incertezas, a sensação de ser insuficiente estão escritos em suas presas. Eu a olho de canto de olho, insatisfeita com sua presença, mas certa de que daqui a pouco vamos dar uma volta.

Mas eu sou a pessoa que guia. Eu sou a pessoa que escolhe o caminho. Ela pode até tentar me puxar para um buraco, me arrastar para o fundo do poço, mas minha força de vontade é superior a sua força. Por isso a encaro de frente. Por isso não tiro a mão quando ela tenta me morder. Por isso não fujo quando ela decide me caçar.

Sei domá-la. Sei dominá-la. E por mais que ela tenha me machucado ao longo desses anos, não tenho medo. Não mais.

Ela pode ficar em cima da sua cama, ao lado do seu computador, na plataforma do metrô. Pode estar sentada na sua cadeira de trabalho, no almoço com os colegas. Pode estar escondida dentro da sua mochila, na sua bolsa. Ela pode estar sussurrando ou gritando. Pode estar te encarando enquanto você se olha no espelho.

Ela pode estar te fazendo duvidar. Pode querer arruinar seu futuro. Porque é disso que ela vive, afinal. Ela se alimenta das nossas esperanças, sonhos e expectativas sobre o futuro, seja ele a curto, médio ou longo prazo.

Decifre sua ansiedade. E quando a tiver compreendido, deixe-a morrer de fome. Não dê a ela um banquete. Não lhe ofereça lugar cativo na ponta da mesa, porque ela não vai pagar a conta. Quem vai pagar a conta é você. E eu garanto que não sai nada barato.

Eu sei que todos nós queremos um futuro melhor. Estudamos para isso, trabalhamos para isso. Mas se vivermos (como eu vivi muito tempo) voltados para o futuro, estaremos dando as costas e deixando de viver esse tempo de agora, que é o presente, que é um presente. O hoje é uma dádiva. Ele é tudo o que temos. E é ele que nos prepara para o amanhã.

Concentre-se nesse presente, foque no hoje, esteja no aqui e agora. Você vai ver como a sua ansiedade recua, como ela encolhe, como se atenua e enfraquece. Você saberá como amansar essa criaturinha. E saberá como viver melhor.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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