Lições do fim

Mulher sorrindo pensativa
Imagem de Free-Photos por Pixabay

Ela nunca soube lidar com finais. Nem com os finais das histórias que lia nos livros, nem com os finais que assistia na TV. Era óbvio que não saberia lidar com o final de um relacionamento.

Não. Ela nunca se deu bem com o fim. Ela que era um contínuo começo, um eterno recomeço, não foi feita para finais.

O fim era uma roupa de luto que ela não queria vestir. O fim eram lágrimas salgadas que ela não queria derramar. O fim era um cálice amargoso que ela não queria beber. O fim era contrário à sua natureza, contrário às suas crenças, contrário ao seu sentimento.

A verdade, contudo, é que o fim chegou. Não de uma vez; não no dia em que eles se separaram, não no dia em que ele lhe deu o último beijo, não no dia que ele partiu. O fim, para ela, chegou aos poucos. Chegou sem que ela sequer percebesse.

E cada vez que ele chegava, mesmo que os olhos dela não chegassem a contemplá-lo, ele lhe ensinava algo. Porque o fim, muitas vezes, tem mais a nos ensinar do que o início.

O fim veio para ela nas noites em que dormia de cansaço após tanto chorar. E ali o fim a ensinou a ser capaz de se derramar durante a noite, se recolher na madrugada e se reerguer pela manhã.

O fim veio para ela na saudade doída e não correspondida. E ali o fim a ensinou sobre a importância da reciprocidade.

O fim veio para ela no vácuo de horas em que não se alimentava, porque não tinha vontade de comer (não tinha vontade de viver). E ali o fim a ensinou que apesar de seu corpo lhe pertencer, ela não tinha o direito de puni-lo ou maltratá-lo.

O fim veio para ela nos sorrisos e gargalhadas que ele dava, enquanto os sorrisos dela tinham ido embora e as gargalhadas desaparecido. E ali o fim a ensinou que não se pode culpar ninguém por seguir a vida. O que se pode (e deve) fazer, é seguir a sua.

O fim veio para ela na frieza, indiferença e abandono. E ali o fim a ensinou que ela era sua melhor amiga. Que ela precisava saber ser sozinha e apreciar sua própria companhia.

O fim veio para ela quando o viu com outra pessoa. E ali o fim a ensinou que para alguns, ele chega mais rápido, para outros, nem tanto.

O fim veio para ela quando o percebeu feliz. Completo. E ali o fim a ensinou que querer que o outro sinta a nossa ausência da mesma maneira com que sentimos a dele, é puro egoísmo. É o nosso ego querendo ser acariciado. E isso nada tem a ver com amor.

O fim veio para ela quando o amor se foi pra ele. E ali o fim a ensinou que não dá pra obrigar alguém a ficar.

O fim veio para ela na tristeza diária e duradoura. E durante todo esse tempo, o fim a ensinou que o sofrimento não iria matá-la. Pelo contrário, o sofrimento estava a ensinando a ser mais forte.

Ela vestiu seu luto. Vestiu aquela roupa de dor até estar surrada das surras que seu coração levava. Ela derramou um mar de lágrimas salgadas. Ela bebeu o cálice amargo. Gole após gole, até a última gota.

O fim, apesar de contrário à sua natureza, às suas crenças e ao seu sentimento, lhe ensinou sobre a necessidade de aceitar e respeitar a decisão das pessoas. Porque quando não há mais nada a ser feito, resta apenas consentir, mesmo que a gente não concorde ou não compreenda.

Ela não sabe dizer o dia exato em que o fim finalmente chegou por completo. Sabe apenas que depois de muito tempo, aquele final foi finalizado. E ela soube que o fim fora concluído porque já não machucava.  

O fim lhe mostrou novos caminhos, novos ares, novas possibilidades, novas pessoas e novas certezas. Foi com o fim que ela voltou a ser começo e recomeço.

Ao provar do fim, ele provou que ela poderia sobreviver a qualquer coisa.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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