A gente aceita o que acredita merecer

barco de papel no oceano
Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay

A frase original “nós aceitamos o amor que achamos merecer” é do livro (que se tornou filme) As Vantagens de Ser Invisível, do autor Stephen Chbosky. Não estou aqui para falar do livro ou de amor. Esse texto é para falar sobre os momentos em que a gente aceita pouco, porque acredita que essa é a nossa porção; é o que merecemos.

No ano passado fui convidada para fazer parte de um projeto. Um projeto fantástico, muito alinhado com o que eu acreditava, meus sonhos e ideologias; de acordo com o que eu queria pra minha vida. O projeto estava crescendo, ganhando cada vez mais forma, força e espaço no mercado, e eu me senti honrada por fazer parte e ajudar a torná-lo maior e melhor.

Havia apenas um pequeno detalhe: eu não receberia salário. Não inicialmente, pelo menos. A responsável pelo projeto disse que naquele primeiro momento, não teria como desembolsar um valor. Eu receberia no futuro uma porcentagem mediante a minha contribuição com o projeto, mas, no presente, nada de retorno financeiro.

Eu aceitei a proposta. Aceitei porque sempre acreditei que ganhar experiência, crescer profissionalmente, evoluir como ser humano, era mais importante do que o dinheiro. Aceitei porque eu acreditava no projeto, acreditava na ideia, na proposta, no propósito e na missão. Declinei outras propostas. Me dispus a trabalhar única e exclusivamente para o projeto, por aquela causa.

Seis meses passaram. Eu não tinha recebido nem um centavo. Pior: eu não tinha aprendido quase nada. Aquela pessoa, apesar de dizer que precisava de mim, nunca pedia ajuda. Aquela pessoa, apesar de dizer que estava atolada de coisas pra fazer, não dividia as atividades e não delegava tarefas. Aquela pessoa, apesar de dizer que estávamos numa parceria, não me permitia pertencer.

Seis meses passaram. Eu não tinha recebido nem um centavo. Pior: nunca estava a par do que acontecia no projeto, ficava sabendo das novidades pelas redes sociais. Estava às cegas, tentando colaborar sem ter noção do cenário, tentando contribuir sem informações ou direcionamento.

Seis meses passaram. Eu não tinha recebido nem um centavo. Pior: a pessoa responsável disse que “se sentia pressionada por ter que me passar alguma coisa, alguma atividade”. Aquela pessoa que, teoricamente, deveria me orientar, aquela pessoa que me chamou para fazer parte do projeto, na verdade não estava disposta a ser líder.

Eu estava frustrada. Estava me sentindo insegura, incapaz, desmotivada. Comecei a questionar a minha capacidade. Comecei a duvidar de mim. Por meses acreditei que aquela situação era aceitável. Eu aceitei o que pensei merecer, porque eu tinha pouca experiência, pouco tempo de formada, pouco conhecimento de mercado.

Acreditei que estava tudo bem não ter salário e não aprender. Estava tudo bem não ter salário, não aprender e não crescer. Estava tudo bem não ter salário, não aprender, não crescer e ser tratada com indiferença. Estava tudo bem fazer parte sem fazer parte.

A decisão de me desvincular do projeto não foi fácil. Eu não queria deixar a pessoa na mão, ainda que ela, naquele momento, estivesse focada em sua carreira pessoal. Bem, eu também precisava focar na minha carreira. Eu precisava (e queria muito) construir uma carreira.

Um dia pedi opinião de algumas amigas da época de faculdade, contei a elas o que tinha acontecido naqueles seis meses. E a fala de uma delas me marcou muito. Ela disse:

você é uma profissional maravilhosa e muito talentosa. Merece estar em um lugar onde as pessoas te valorizem de verdade; ninguém deve te diminuir assim.

Foram essas palavras que me deram a certeza de que eu tinha que seguir em frente, trilhar meu próprio caminho para encontrar um lugar – e pessoas – que somassem, que me valorizassem e respeitassem.

Posso dizer que desde que mudei minha rota, minha vida tomou um novo rumo. Conheci pessoas e estive em lugares onde fui respeitada, onde meu trabalho foi valorizado. Estive com profissionais muito mais experientes do que eu, que se dispuseram a dividir comigo o que sabiam, e o que não sabiam, a gente descobriu junto.

Tive a oportunidade de estar com pessoas que me davam suporte, apoio, feedback e guia. Pessoas que não estavam preocupadas exclusivamente com a entrega, mas com o processo de construção. Pude estar com pessoas que entendiam o verdadeiro significado de parceria e colocavam em prática a colaboração.

Ainda tenho muito a aprender. E quero aprender muita coisa ainda. Mas em dois meses eu cresci mais do que em seis. Estou mais confiante sobre esse novo caminho que decidi seguir. Estou orgulhosa por ter sido capaz de me afastar de pessoas que nada somavam, mas também por ter sido capaz de tirar algum aprendizado do período que estive com essas pessoas.

E um dos aprendizados foi este: a gente precisa tomar cuidado com o que aceita, com aquilo que a gente acha que merece. Não fique com pessoas ou em lugares que te minimizam. Não se demore com pessoas ou em lugares que te desmerecem. Não prolongue a estadia na vida de pessoas que não fazem questão da sua presença. Não retarde a partida. Não adie a despedida.

Precisamos nos respeitar e valorizar. Precisamos parar e refletir: será que esse é o meu lugar? Eu realmente quero estar aqui? Essa pessoa está contribuindo para o meu crescimento profissional? Esse ambiente me permite evoluir pessoal e profissionalmente?

Às vezes a resposta não está na ponta da língua, mas escondida no fundo da nossa mente. A gente precisa desbravar os mares dos medos e encontrar as respostas, pois enquanto elas estiverem ocultas nas profundezas de um oceano de dúvidas, eu e você estaremos nos sabotando. Estaremos construindo barquinhos de papel.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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