M de mulher, M de medo

mulher com medo
Imagem de Anna Marie Škardová por Pixabay

Na semana passada recebi dois convites.

Convite um: uma amiga muito querida, que é maquiadora profissional, precisava de uma modelo e fez a gentileza de me chamar. Fiquei bastante empolgada com a ideia de poder ajudá-la.

Convite dois: fui chamada por alguns colegas de trabalho para acompanhar um projeto na qual estamos trabalhando. Me senti grata pelo convite e feliz pela oportunidade de ver de perto a materialização daquilo que ajudei a criar.

Mas não consegui responder de imediato a nenhum dos convites. E minha demora tem dois motivos:

Motivo um: a pandemia.

Motivo dois: o medo.

Apesar de conhecer as pessoas que me convidaram, eu não conhecia o lugar. E para chegar até eles, eu precisaria utilizar o serviço de transporte privado e solicitar um motorista com auxílio do aplicativo.

Eu fiquei com medo. Não pelos trabalhadores honestos que fazem dezenas de viagens diariamente e tratam seus clientes com o devido respeito. Fiquei com medo por aqueles casos que a gente vê na TV e lê nos jornais. Casos de pessoas que agem com malícia e maldade. Fiquei com medo por, simplesmente, ser mulher.

É claro que aceitei os convites. Por dois dias utilizei o serviço do aplicativo e tudo correu bem. No terceiro dia, minha amiga me buscou na estação. O medo não me impediu. O medo não me parou. Mas o medo me fez refletir.

Pensei sobre todas as vezes em que tive medo. Pensei sobre todas as mulheres que, assim como eu, convivem com o medo.

Quando eu ainda estava na Faculdade um professor fez a seguinte pergunta a uma de minhas colegas:

“Qual é seu maior medo?”

“Ser estuprada”, ela respondeu.

“Alguém mais tem esse medo?”

Todas nós levantamos a mão. E nossas mãos, de um jeito ou de outro, permanecem erguidas.

Porque mulheres continuam sendo estupradas e assassinadas. Mulheres continuam sendo humilhadas e violentadas. Mulheres continuam sendo ofendidas e assediadas. Mulheres (e meninas) continuam sendo vítimas de uma sociedade doente.

Eu me pergunto como é não ter medo. Não ter medo de usar determinada roupa, não ter medo de voltar tarde pra casa, não ter medo de andar sozinha na rua, não ter medo de pegar uma carona.

Eu me pergunto como é não ter medo de ser. Porque eu sou mulher e isso já faz de mim um alvo. Não um alvo fácil (porque de frágil não temos nada), mas alvo de olhares, de comentários, de risos e sorrisos, de desigualdade, de rejeição, de questionamento e de críticas.

É como se a gente já nascesse com um círculo desenhado no peito à espera de um tiro. E passamos a vida toda desviando das flechas. Muitas são atingidas, caem e levantam. Outras são golpeadas e não mais se levantam.

Gostaria de crer que meus medos são como os medos que a gente tem quando criança. Porque quando crescemos, eles desaparecem. Ou, se não desaparecem, nos tornamos capazes de enfrentá-los e superá-los. Esse, porém, parece ser o inverso; quanto mais a gente cresce, mais predador se torna.

Eu me pergunto como é não temer a própria gente. Porque eu não tenho medo exclusivamente de homens. Mais do que qualquer besta fera, mais do que qualquer criatura, eu tenho medo do ser humano.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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