Redes sociais: um campo de comparações

Peças lego
Imagem de Eak K. por Pixabay

Os dedos dela correm ligeiros para desligar o despertador que grita. Ela mal abriu os olhos quando abre o Instagram.

Mesmo sonolenta, consegue ver o café da manhã incrível que sua prima compartilhou no story. Mesmo sonolenta consegue ver que a vizinha já fez sua corrida matinal e yoga. Mesmo sonolenta consegue ver a foto postada pela antiga colega de faculdade, que está de férias nas Maldivas. E mesmo sonolenta, ela consegue ver a foto de uma de suas cantoras favoritas, que acordou pouco antes. A legenda diz: acordei pra ser feliz.

É claro que ela acordou pra ser feliz. Todos nós acordamos. A diferença é que ninguém acordava tão bonita daquele jeito. Não gente normal, pelo menos.

Ela suspira na cama e levanta. Se encara diante do espelho. Olho para as fotos do Instagram. Visualiza os stories.

Ela começa a se sentir culpada. Culpada porque não tem os ingredientes para preparar um café da manhã incrível, culpada porque não tem disposição para correr e nem paciência para praticar yoga, culpada porque não tem condição de passar as férias em outro país, culpada porque não é tão bonita, tão alta, tão magra.

Já de banho tomado, alimentada e trocada, ela se prepara para começar mais um dia. E seu dia começa, oficialmente, com o Linkedin.

Ela vê uma amiga sendo promovida. Vê aquela colega de escola administrando a própria empresa. Ela vê conhecidos e desconhecidos realizados, gratos, motivados e emocionados. Ela vê gente lançando livros, canais no YouTube, newsletter. Ela vê gente sendo premiada, reconhecida e valorizada. Ela vê gente mudando de carreira, de emprego, de empresa, de vida.

O dia começa e acaba ao mesmo tempo.

Ela volta a se sentir culpada. Culpada por não ter um emprego. Culpada porque nunca foi promovida. Culpada porque não se sente capaz de empreender. Culpada porque se alegra por aquelas pessoas, mas se entristece ao olhar para si. Culpada porque se sente perdida. Culpada porque se sente invisível.

À noite, pouco antes de dormir, ela volta para o Instagram.

Ela vê uma atriz que acaba de passar por uma cirurgia plástica. Ela vê uma musa fitness com seu cachorrinho. Ela vê os novos produtos daquela, os sapatos daquela, as bolsas daquela, as roupas daquela, as joias daquela. Ela vê o cabelo, a pele, os olhos, a boca, o corpo. Ela vê nelas tudo o que não vê em si.

E ela não vê, simplesmente porque não se enxerga. Porque seus olhos estão cegos por uma perfeição que não existe.

A gente até sabe que ninguém é como parece e aparece no Instagram. A gente até imagina que ninguém é tão feliz no trabalho como diz no Linkedin.

A questão é que mesmo a gente sabendo, a gente entende aquilo como real. E pior: a gente compreende e determina aquilo como padrão, como correto, como ideal.

A gente esquece que é único. A gente deixa de lado as individualidades pra ser igual. Porque ser igual à eles parece ser bom.

E aí a gente usa filtro do Instagram, mas não filtra o que vê, o que comenta, o que compartilha, o que curte, o que consome e que nos consome. E aí a gente conecta no Linkedin e desconecta com nosso propósito, nossa missão e a crença na nossa capacidade.

A gente se culpa por não ter o que eles tem, não fazer o que eles fazem, não ser quem eles são, quando nossa maior culpa é querer ser outro alguém que não a gente mesmo.

É claro que nas redes sociais as pessoas colocam a melhor foto, o melhor ângulo, o melhor momento, o melhor dia, a melhor luz. As pessoas dividem com o mundo a sua melhor versão. E não há nada de errado nisso.

O problema é que essas redes enaltecem uma espécie de sucesso muito particular. Nelas prevalece a exposição do celeste. Nelas predominam carreiras, casas, conquistas, corpos, carros, cruzeiros. Elas são um campo (oculto) de competição.

Ninguém tá pedindo pra gente compartilhar vídeos ou fotos de momentos vergonhosos da nossa vida pessoal. Ninguém tá dizendo pra gente falar sobre demissões, humilhações ou desaforos da vida profissional. Mas, se quiserem, tá tudo bem. Porque esses momentos fazem parte da vida.

O que a gente quer (pelo menos o que eu quero) é poder ser de verdade. Porque ser de verdade é ter dias bons e ruins, altos e baixos. A gente quer ser livre. Livre de padrões ou rótulos. Alguém que vive, como já dizia o Chorão, dias de luta e dias de glória.

Eu quero poder ser imperfeita sem culpa. Porque, pra mim, ser imperfeito é premissa básica do ser humano.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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