Competitividade feminina e a síndrome da Rainha Má

Branca de neve

Tive duas melhores amigas até os meus quinze anos.

Por algum tempo – e por razões que eu desconhecia – não conseguia ter amizade com mulheres. Hoje tenho o privilégio de contar com amigas incríveis, mulheres fortes, independentes e maravilhosas, mas a minha relação com elas só foi possível após um longo processo de construção e reconstrução de mim mesma.

Estudei por dez anos na mesma escola. Não era popular, mas era reconhecida pelos concursos de redação que ganhei e conhecida por ser uma boa aluna. Boa aluna, mas não a melhor. Minhas notas em matemática, química e física não colaboravam para que eu tivesse esse destaque.

Na época uma das minhas melhores amigas é que recebia o título de melhor aluna. Ela era boa em tudo, parecia perfeita. Era alguns dias mais velha do que eu, alguns centímetros mais alta do que eu, com o cabelo mais cheio, brilhoso e sedoso. Ela usava maquiagem, pulseiras, colares. Ela era descolada, destemida.

Me recordo que um dia, enquanto uma professora chamava a atenção da sala, comentou que as meninas deveriam se arrumar mais e usou aquela minha amiga como exemplo, já que o cabelo dela estava sempre bonito, com penteados diferentes. No dia seguinte todas as meninas estavam usando o cabelo igual ao dela. E durante os anos seguintes todas as meninas (incluindo eu) queriam ser iguais a ela.

A escola, a direção e os amigos nos comparavam frequentemente. E por mais que nosso sentimento de amizade fosse sincero, hoje percebo que aquela contínua competição sobre quem era melhor, só nos fez mal.

Fez mal porque eu cresci acreditando que as mulheres que me rodeavam eram minhas competidoras. Fez mal porque eu não sabia como era me sentir igual; sabia apenas como era me sentir inferior. Fez mal porque eu não sabia que a beleza de outra mulher não anula a minha, que a inteligência de outra mulher não diminui a minha e que as conquistas de outra mulher não invalidam as minhas.

Minha outra melhor amiga era alguns centímetros mais baixa do que eu. Era alguns meses mais nova do que eu, com físico e personalidade diferentes. Mas ela não queria ser ela. Ela queria ser eu. Porque naquela época, assim como hoje, a sociedade tem por costume ditar as regras de como uma menina (ou mulher) deve ser. E ela – infelizmente – acreditava que eu era o modelo a ser seguido.

Ela queria minhas roupas, sapatos, acessórios. Sabia como eu andava, como eu falava, como gesticulava e como mexia no cabelo. Ela se apaixonava pelos meninos que tinham algum interesse em mim. Ela amava a ideia de sermos parecidas.

Na época isso tudo me irritava. Me irritava porque eu queria meu espaço, meus momentos, minha vida. Hoje me entristece, porque vejo que aquela menina perdeu sua identidade buscando assumir um alguém que não era. Isso fez mal a ela. Fez mal a mim.

Fez mal porque eu cresci crendo que todas as outras mulheres eram minhas adversárias. Fez mal porque eu achava que elas tentariam tomar o que era meu. Fez mal porque eu tinha medo de ser trocada ou excluída por não ser tão legal, tão divertida, tão carismática. Fez mal porque eu pensava que nunca seria aceita. Fez mal porque eu não sabia que não existem mulheres melhores do que eu, somos todas únicas.

Vivi toda a minha pré-adolescência e adolescência competindo com as minhas duas melhores amigas. E quantas meninas crescem ouvindo que seus corpos não são tão belos, suas unhas precisam estar feitas, seus olhos não são tão chamativos, seu cabelo não é tão bonito, sua pele não é tão lisinha, dentre tantas outras coisas.

A gente cresce achando que precisa disputar tudo. A gente cresce com a síndrome da rainha má da Branca de neve, perguntando ao espelho todos os dias: espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?
Dependendo da resposta do espelho (que é o nosso ego), mulheres se coroam com vaidade, tomam o punhal de soberba e envenenam a si mesmas com uma maçã de inveja.

E aí, quantas vezes a gente é medida de cima abaixo. Quantos risinhos e sorrisinhos percebemos. Quantos olhares maldosos recebemos. Quantas vezes somos ofendidas, desprezadas, maltratadas. Quantas meninas são humilhadas por outras meninas. Quantas mulheres humilham outras mulheres.

Sou grata porque encontrei pelo caminho mulheres que não me perguntavam a nota que eu tirei na prova, a faculdade em que me formei, quantos relacionamentos tive, os nomes das empresas em que trabalhei, se eu sabia dirigir ou cozinhar. Eu encontrei amigas que não estavam interessadas em falar dos seus feitos, em mostrar suas proezas, em exibir o que tinham ou se vangloriar. Elas queriam somar. Nada mais. Nada menos.

Não dá pra incentivar competitividade feminina. Não dá pra perpetuar essa rivalidade.

A gente precisa se ajudar, se unir, se respeitar, se apoiar. A gente precisa tomar consciência de que juntas somos mais fortes, de que nossas diferenças e particularidades devem ser exaltadas. Precisamos ter a certeza de que o nosso eu merece ser celebrado.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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