Confissões de uma leitora – Por que o brasileiro não lê?

Leitura-livro
Imagem de Evgeni Tcherkasski por Pixabay

Exceção à regra

Eu não tinha nem cinco anos quando ganhei meu primeiro livro. Eu não sabia ler, é claro, mas me apaixonei por histórias. Por ouvir histórias, depois por ler histórias, e, por último, por contar e criar histórias.

Cresci rodeada por livros. Cresci com sereias, dragões, príncipes, princesas, fadas, vampiros, semideuses, heróis e vilões. Passei mais tempo com livros do que com meus amigos, provavelmente. Na verdade, sempre considerei os livros como bons amigos.

E para mim era estranho perceber que a maioria das pessoas não gostava de ler. Ler, na minha opinião, sempre foi prazeroso. Eu me perdia nas páginas (às vezes até no tempo), e também me encontrava nas páginas. Eu me via nos personagens, me lia nas entrelinhas. Gostava de sensação de deixar para trás a realidade.

Leitores ou consumidores de conteúdo?

Então por que o brasileiro lê, em média, dois livros por ano?
Creio que nenhum de nós (os que leem e os que não leem) tenha uma resposta completa e definitiva.

O que tenho observado é que esta geração é uma das que mais lê. Não livros, exatamente. Mas estamos, diariamente, consumindo e emitindo um volume gigantesco de informações.

As pessoas leem mensagens no WhatsApp, e-mails, posts no Linkedin, legendas no Facebook e Instagram. As pessoas curtem e comentam publicações, leem jornais online, leem ao fazer o pedido de comida ou transporte pelos aplicativos. Leem legenda de filmes e séries, leem letras de música, leem receitas, poemas, entrevistas. Estamos lendo o tempo todo.

Apesar de existir cada vez mais preferência pela imagem, por vídeos ou podcasts, o texto ainda mantém seu lugar no pódio consumo. Contudo, o tipo de leitura que as mídias e as redes sociais carrega, traz consigo uma carga pesada de dados, números, estatísticas, nomes, lugares, fatos e acontecimentos.

Desde o momento em que acordamos, até o instante em que vamos dormir, nossos olhos leram dezenas de textos e nossa mente absorveu algumas informações. Não conseguimos reter tudo. Nosso cérebro procura filtrar e armazenar somente o que for relevante.

Mas a verdade é que independente das tentativas da nossa mente para se manter sã diante desse volume excessivo de informação e conteúdo, sofremos bombardeios constantes que resultam em infoxicação.

Como dito anteriormente, apesar de essa ser a geração que mais lê (e escreve, mas esse é assunto para outro artigo), ainda continuamos com um baixo índice de leitura no país e com 30% da população que nunca comprou um livro.

A crença de que leitura é sinônimo de chatice

Volto a perguntar: por que o brasileiro não lê?
Porque livros são caros. Porque não é todo mundo que tem acesso. Porque as pessoas não têm tempo.

Muitas respostas possíveis, mas uma delas foi a que mais escutei ao longo dos anos: porque ler é chato.

Muitas dessas pessoas aprenderam que ler é chato na escola e, consequentemente, se tornaram adultos que não tem o gosto ou o hábito da leitura. E esses adultos muito provavelmente não vão incentivar seus filhos e netos a lerem.

A escola tem um papel fundamental na vida de qualquer pessoa, assim como a leitura. E eu compreendo que cabe a escola nos apresentar os clássicos da literatura. Foi na escola que eu conheci Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Cortiço, Dom Casmurro, Vidas Secas, dentre outros. Mas até para mim, uma devoradora de livros, algumas leituras não eram fáceis.

E tanta gente se acostuma com a ideia de que ler é chato e complicado. A leitura nas escolas é avaliada com provas, apresentações de seminários, resumos. Raramente ela é colocada e entendida e como algo prazeroso, um momento de lazer.

As crianças que têm acesso aos livros em suas escolas (porque, convenhamos, não estamos falando da maioria), tem prazo para ler e recebem nota por isso. Ninguém lhes diz que existem outros títulos e gêneros além daqueles e que ler não é uma obrigação – não deveria, pelo menos.

De acordo com a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro em 2016, entre as principais motivações que impulsionam os leitores brasileiros estão:

  • O gosto pela leitura (25%)
  • Atualização cultural (19%)
  • Distração (15%)
  • Motivos religiosos (11%)
  • Crescimento pessoal (10%)
  • Exigência escolar (7%)
  • Atualização profissional ou exigência do trabalho (7%)

Livros são a chave

Eu sempre penso que as pessoas que não gostam de ler, não gostam porque nunca foram apresentadas ao livro certo. E livro certo é, justamente, aquele que abre as portas para o mundo da leitura. É ele que cria a ponte e que mostra um novo caminho. O livro certo é o que te faz gostar de ler.

Logo que comecei a escrever livros (isso quando eu ainda era adolescente) decidi que queria que meus livros fossem chaves; as chaves que abririam as portas para aqueles que, até então, não eram adeptos, não tinham o hábito da leitura. Esse era meu ideal, meu sonho. Esse era o meu propósito e missão como escritora.

Em 2014, quando lancei dois livros na Bienal do Livro de SP, meu sonho se tornou realidade. Uma menina que não gostava de ler, mas por insistência de sua mãe decidiu conhecer a Bienal, comprou meu livro. Algumas semanas depois ela entrou em contato comigo dizendo que eu havia mudado sua vida. Porque, através do meu livro, ela descobriu gostar de ler.

Queria poder mudar a realidade do nosso país. Gostaria que os livros fossem mais baratos e a leitura mais acessível. Gostaria que as escolas tivessem outros métodos, outra visão e outros projetos quando o assunto é alfabetização, escrita. Gostaria que houvesse valorização de obras e autores nacionais.

Mas se eu não posso alterar nada disso, sei que posso fazer a minha parte. Por isso cultivo o hábito da leitura não apenas nos que estão próximos de mim, mas em todos. Por isso eu escrevo.

Porque sei que há centenas de leitores escondidos e espalhados por aí, apenas esperando o livro certo.

Publicado por Bianca Coutinho Lopes

Dois verbos me definem: ler e escrever. Sou uma devoradora de livros e criadora de histórias, dona de imaginação infalível e criatividade incansável.

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